Um olhar brincante – Por Lucas Lulúdico

Nós não podemos ser nada antes de ser alguma coisa. Um pouco filosófico demais para um início de conversa, mas calma! É só para dizer que a criança que você foi ainda está aí dentro, confie. Ela ainda é você e você ainda é ela.

As crianças e suas infâncias carregam consigo o primeiro aprendizado das coisas e testam o mundo para conhecê-lo. Um jeito de degustar de diversas formas, com a mesma língua. Elas detêm no seu fazer o fazer primeiro, um encantamento espontâneo com o mundo, pois todo ele é novo para o novato. Um turista da vida.

A expectativa criada entre estes princípios, as coisas primeiras, gera nos pais, de diversas formas, uma preocupação e responsabilização sobre todos os outros fatos que venham a ocorrer no crescer, como se eles pudessem dar conta disso. Como se só eles pudessem dar conta de algo que de fato não existe: o futuro.

Percebo nas diversas entrevistas que já fiz com mães e em diversas interações com as crianças que a infância é este espaço de estar no mundo para usufruir o todo possível e o que ele nos dá no aqui e agora. São mestres em usufruir do mundo e estão fazendo isso do jeito que conseguem, à revelia de seus entes e cuidadores em geral. Elas organizam a genética em que foram concebidas, assim como toda sua cultura e história já com autonomia – e têm esse direito de escolher ser.

Sabemos que este processo se dá de forma dependente, afinal somos o ser vivo mais dependente após o nosso nascimento em relação aos outros seres vivos. [Já imaginou que uma girafa cai de mais de um metro ao nascer?] Mas mesmo que adultos fiquem enchendo o saco para que a infância seja do jeito que eles, os adultos, gostariam, a arrumação deste viver se dará de uma forma ou de outra.

Para fazer essa balança entre o desejo da criança e suas necessidades básicas é preciso estar com a humildade em dia, ter clareza do poder de cada um e consciência de que o chão que pisamos é para todos e que todos arranjarão um jeito de sobreviver.

É muito comum lidarmos com estas infâncias como se pudéssemos controlá-las, até que o tempo passa e em algum lugar perde-se a possibilidade de contemplá-la.

O Carl Rogers em seu livro Tornar-se Pessoa disse que é preciso contemplar o ser humano como se contempla um pôr-do-sol.

Concordo com o modo de ver que se aprende na infância: tudo é novo e pode ser reaprendido e repetido de outra forma. E acho incrível perceber a complexidade que é a simplicidade da infância, pois nesta fase há o potencial para sermos qualquer coisa possível de ser; e no contato com a nossa infância essa reação pode ser presentificada.

Aos pais peço cautela e contemplação para que as crianças, em interação, possam servir ao viver na sua mais plena ação.

É isso que chamo de estado de brincadeira.

* Lucas Lulúdico é brincante de alma e profissão, psicólogo clínico e social, músico por hobby, arte-educador, festejador da vida, encantado pela infância, tem uma rede no alto do abacateiro do seu quintal e acredita que a vida só melhora.

3 Comentários até o momento

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  1. Legis
    #1 Legis 13 março, 2015, 14:07

    Excelente!!! Que muitos pais e mães leiam esse texto.
    Parabéns!

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  2. Lilica
    #2 Lilica 13 março, 2015, 19:51

    Que leveza de texto lindo brincante! Com toda essa entrega e otimismo você faz reverberar a energia harmonizante do brincar. Será aí que está a verdadeira revolução?

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