Se essa Rua fosse minha… – Por Nairzinha Spinelli

Cultura popular: uma abordagem de folclore com vistas à construção de uma cultura da paz

Folclore é um repertório cultural criado por um sujeito coletivo, as classes populares, e que se constitui na sua tradição, no seu entendimento de mundo na descrição da sua realidade. Esse saber do povo ou folclore vem armazenado nas lendas, contos, músicas, histórias, apólogos, e provérbios no artesanato e na poesia popular, nos divertimentos e comemorações. São, portanto, as manifestações variadas da alma popular, através de ideias e dos sentimentos coletivos, inconscientemente feitos e refeitos através dos tempos, também denominado de fato folclórico.

O termo folclore é inglês, composto de folk (povo) e lore (saber, ciência). O saber do povo. O termo foi criado por William Jonh Thoms (1803-1885) em substituição à expressão antiguidades populares. Seria um erro marcamos com a criação do termo o surgimento do estudo das tradições populares.

Na Inglaterra, já se publicava, em 1646, um livro de Thomas Brown, Pesquisa das supertições vulgares. Na França, foi publicado, em 1697 o livro As histórias ou contos dos tempos passados, de Perrault:  na Alemanha, em seguida os Irmãos Grimm publicam lendas e contos populares. Os estudos sobre tradições populares precursores do folclore, entretanto, remontam à Grécia antiga, 160 a 180 anos d.C.

Segundo Câmara Cascudo, Folclore é a cultura do popular, tornada normativa pela tradição. Hoje, conclui-se que essa tradição não pode ser pensada como algo estático, permanentemente fixo. Ela deve ser vista como algo mutável dinâmico: isso acontece porque o folclore não existe no vácuo social. Ele existe dentro de um contexto sócio e histórico.

Assim as práticas que associamos ao folclore são permanentemente recriadas, reelaboradas, readaptadas às novas formas assumidas na sociedade.

Em dezembro de 1995, em Salvador–Bahia realizou-se o VIII Congresso do Folclore Brasileiro onde foi atualizado o conceito de  Folclore. Folclore é o conjunto de criações culturais de uma comunidade, baseado nas suas tradições expressas individual ou coletivamente, representativo da sua identidade social.

O que identifica o folclore é o anonimato (exceto o artesanato e a poesia popular), aceitação coletiva, tradicionalidade, dinamicidade e funcionalidade.

Cultura da Brincadeira

Minha motivação pelo assunto está ligada ao folclore infantil e à cultura da brincadeira brasileira. Venho de uma experiência de contato com o folclore, vivida desde muito cedo na Hora da Criança – projeto de arte e educação baiano onde aprendi cantar e dançar cantigas de roda, brincadeiras cantadas, brincar livremente nas tardes ensolaradas e frescas de Salvador, na Praça da Piedade.

Éramos crianças felizes e iguais. Cresci ouvindo histórias da cultura popular, a carochinha portuguesa, os contos africanos, as lendas indígenas. Tomando contato com o entendimento e a percepção da vida desses povos, pelas lentes da fantasia.

Minha escolha profissional como assistente social ligada ao movimento popular aprofundou o meu entendimento de folclore como revelação de identidade. A presença de traços das culturas indígena, portuguesa e africana nas nossas manifestações culturais funciona como um jogo de espelhos que nos coloca diante da nossa diversidade e nos ajuda a negociarmos nossa identidade, para assumirmos uma brasilidade multicultural, tão branca quanto índia e negra, e constituir uma convivência de respeito e paz.

* Nairzinha estuda há 40 anos o universo infantil brasileiro. Cresceu sem deixar de ser criança. Pesquisadora, compositora e contadora de histórias, gosta mesmo é de brincar, seja da forma que for, mas sempre em roda. Fundou a Oscip Sons do Bem para ajudar a espalhar a beleza (e a importância) do brincar. Entre as brincadeiras, tem o Cirandando Brasil.

3 Comentários até o momento

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  1. ROMEU SOUZA SANTOS
    #1 ROMEU SOUZA SANTOS 24 março, 2015, 15:38

    O Brasil mudaria de cara se nossas crianças voltassem a viver o que tentaram ocultar nas verdadeiras brincadeiras.

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