Artigo: Rumo ao Sucesso… Por Bisa Almeida

A humanidade nunca se preocupou tanto com o sucesso como agora. Grande parte das pessoas, hoje, quer brilhar, ser reconhecida por sua capacidade de trabalho, pela sociedade, talvez viver uma vida de celebridade; ter fama e fortuna! Numa sociedade competitiva e individualista em que a exposição midiática é um valor a ser alcançado, a necessidade de reconhecimento se acentua. Quanto mais as pessoas se expõem, mais visibilidade terão e o sucesso virá como consequência. Será?

Assim como os adultos perseguem esta fórmula de sucesso, é bastante razoável supor que queiram e façam tudo para que os seus filhos o alcancem também.

Mas aí cabe uma pergunta: o que é verdadeiramente ter sucesso? O que os pais realmente imaginam para seus filhos, acreditando ser o melhor para eles? Que o seu filho seja o líder da classe? Que tire as melhores notas? Que ganhe a olimpíada de matemática? Ou estude numa escola, com a qual não se identifica, apenas porque o ensino tem fama de exigente? Todos esses requisitos podem ser indicativos de que ele passará nos vestibulares mais concorridos. E isto pode até lhe assegurar uma boa condição no mercado de trabalho, para no futuro ganhar prestígio, ter uma bela imagem social e uma recheada conta bancária. Você acredita ser esta a fórmula do sucesso?

Lamento informar, mas não necessariamente, pois nem sempre as coisas funcionam desta maneira. O homem contemporâneo não está mais centrado em si mesmo, sendo atualmente um ser regido pela incerteza e sujeito de permanentes transformações. A repetição de velhas fórmulas, aquela ideia de que nossa formação pessoal deve ser reproduzida na formação de nossos filhos nem sempre funciona mais.

Vivemos, portanto, no campo das incertezas e simultaneamente das possibilidades, no qual as nossas escolhas são feitas segundo nossos valores e objetivos. Nós somos portanto, as nossas escolhas. Se os pais, na melhor das intenções, se esforçam para determinar como será a vida dos seus filhos, podem dificultar que estes se posicionem e assumam responsabilidades, tirando destes a capacidade de decidir ou tomar iniciativas, diante dos desafios que a vida lhes apresentará. Quando a criança se omite enquanto sujeito e torna-se uma realizadora dos desejos de sucesso idealizados pelos pais, pode pagar um preço muito caro por esta subserviência.

Claro que existe a necessidade de atenção e orientação especial a uma criança pequena, levando-se em conta a sua fragilidade física e sua formação intelectual ainda em construção. Mas essa necessidade de orientação não pode ser confundida com a imposição dos desejos dos pais. Precisamos reconhecer o direito da criança à liberdade de expressão, à livre eleição de suas opiniões e preferências. Precisamos tratá-la como um ser responsável, capaz de pensar por si mesma. Esta seria uma educação para o crescimento.

Sabemos que um ambiente estimulador é muito importante, mas a criança precisa também de equilíbrio emocional para se desenvolver. Segurança e tranquilidade para funcionar bem. É preciso viver num clima de confiança e respeito, no qual os adultos à sua volta interajam com ela, mostrando através de argumentos qual o melhor caminho. Estes são fatores essenciais para um bom desempenho tanto no campo cognitivo, como no social.

Nesta sociedade complexa e diversificada cabem vários modelos. Precisamos de pessoas criativas e com alta capacidade de inovação. Para tanto, é preciso ter uma prática constante de dialogar com o mundo e toda a diversidade cultural que está ao nosso alcance. É necessário criar um acervo cultural que dê suporte às escolhas, e que vai sendo construído a cada dia, tal como assistir bons filmes, ir ao teatro e fazer teatro, ir aos museus, ler bons textos, desenhar, pintar, modelar; trabalhar com as mãos, criar seus próprios brinquedos, pode ser um bom caminho para se alcançar este propósito.

Brincar, sobretudo brincar na rua e no espaço livre, com amigos, no sítio , no parque, na praia, brincar de cozinhado, pular corda e macaco, carrinho de rolimã, etc. É preciso oferecer às crianças o direito de ser criança e não uma promessa de futuro para preencher possíveis frustrações ou desejos recônditos da família. Como disse Edgard Morin, é melhor uma “Cabeça bem feita do que uma cabeça cheia”, isso porque as crianças são capazes de conectar seus conhecimentos, dar-lhes um significado e transformar a informação em conhecimento e conhecimento em sabedoria.

Abro o Facebook e vejo um post de uma ex-aluna que atualmente vive na Nova Zelândia. Ela diz que nas últimas 96 horas, empacotou todas as suas coisas, fez uma mudança, desempacotou, arrumou tudo e, ao final, fez um churrasco de comemoração. Segue falando que sua nova casa agora já parece um lar e ela está se sentindo maravilhosamente bem. Depois coloca um emotion de felicidade! Fiquei encantada com esta moça brasileira e baiana, que está vivendo muito distante e encontra formas de ser feliz! Penso o quanto ela está acionando suas estruturas cognitivas, sociais e emocionais, que foram construídas na terna infância, para passar por estas experiências tão enriquecedoras.

Mais adiante, leio seu comentário sobre um outro post, dizendo que adora ler sobre “Os pais que não criam seus filhos numa bolha” e respiro aliviada, pois esta menina, vivendo os desafios de ser estrangeira numa terra distante, falando outra língua, move-se com uma flexibilidade impressionante, adapta-se às novas situações, encontra soluções, tem um comportamento autônomo e suas atitudes me fazem pensar que ela é uma pessoa livre, feliz e bem sucedida!

Precisamos educar para crescer. Sabemos que não existem receitas prontas, mas alguns indícios nos mostram que os velhos modelos já não respondem às exigências de um mundo cada dia mais complexo, no qual as verdades são transitórias e as transformações acontecem de forma muito rápida.

Pensar, sentir, agir e transformar. Ser culto e sábio. Esta é a chave para o sucesso, que vem de dentro para fora. Só assim poderemos construir um mundo melhor e mais humanizado.

Bisa Almeida é educadora, com MBA em Desenvolvimento de Pessoas e Empresas pela Fundação Dom Cabral, MG. Diretora da Escola Experimental desde 1986, criadora e diretora do Acampamento Educativo Mundo da Lua e da Bisa Almeida Produções, que desenvolve Projetos Culturais. Adora viajar e conhecer novas culturas, observando como as crianças brincam.

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4 Comentários até o momento

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  1. Christiane Glasner
    #1 Christiane Glasner 26 abril, 2015, 12:20

    Bisa, parabéns pelo texto!! Traz a causa, talvez fundamental, das angústias dos dias atuais, no que tange o olhar dos pais sobre os filhos: a necessidade de garantir o adulto bem sucedido, ainda na infância. Garantir o sucesso, como você assertivamente pontua, já é em si uma tarefa repleta de equívocos, tentar fazê-lo na criança é certamente um dos meios de, na verdade, adoecer o desenvolvimento infantil.
    Precisa a sua abordagem, quando assinala um dos caminhos possíveis para sairmos desse desvio de olhar: a formação cultural e o resgate do lúdico.
    Excelente reflexão para um dia de domingo. Que os pais leiam, sintam e comecem um novo caminho.

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  2. Leticia
    #2 Leticia 27 abril, 2015, 17:01

    Oi Lis,

    Muito bom seu artigo. Concordo com sua visão; pais que não incentivam seus filhos a se desenvolver contribuem para torna-los inseguros, sem autoconfiança e com muito menos chances de crescimento e “sucesso” em suas vidas adultas. E isso piora quando subestimam suas capacidades e potenciais, ou comparam desempenhos como se todas as criancas fossem iguais.

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  3. Cynara Ferreira Araújo Silva
    #3 Cynara Ferreira Araújo Silva 10 abril, 2016, 11:29

    Bisa, você sempre nos fazendo refletir e nos orientando ao mesmo tempo. Preocupante os tempo contemporâneos, onde conflitua viver novos jeitos ou manter saudosamente velhos hábitos. Ao tempo em que não conseguimos aguardar o amadurecimento natural de nossas crianças, cobrando delas que adulteçam rápido para não ficarem para traz.
    Sempre aprendo muito contigo.
    Bj

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