O Teatro-Rock and Roll – Por Marconi Araponga

“Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade”
Olavo Bilac, “A um poeta”, 1919.

Lembro-me de uma tarde há anos atrás – a puberdade expulsava lenta e gradualmente a infância do meu corpo – quando ouvi Gita de Raul Seixas e Paulo Coelho pela primeira vez. Música que fugia do padrão aos quais os meus ouvidos deseducados estavam acostumados.

Aquela experiência dividiu em duas partes a minha vida. Hoje percebo que serviu para demarcar estas duas diferentes fases.

Eram os anos 80 das guitarras distorcidas: Ira!, Barão Vermelho, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso, Titãs estourados nas rádios, no Chacrinha, no Raul Gil, no Silvio Santos, no Clube do Bolinha, no Globo de Ouro, no Gugu, todos dublados em playback… A Legião Urbana (que só tocava ‘ao vivo’) ainda não havia me fundado.

Foto: Luciana CominE foi nesse cenário pop – travestido de rock and roll tupiniquim – que o então esquecido roqueiro Raul Seixas, com sua Gita, me chacoalhou, me confundiu e, por fim, me organizou, com seus trompetes anunciadores… sinos em dobras… aquela letra de viés esotérico/espiritualista que me produzia sensações perturbadoras.

Mas essa canção não trazia as guitarras distorcidas tão características daquela forma musical… poderia Gita ser considerada rock? Tive dúvida. Ouvi umas 15 vezes e meu equívoco foi entender que ali não havia rock and roll.

Mesmo assim queria… Não! Desejava… Não! Precisava (!) fazer a turma passar por essa incrível experiência. Eu achava que tinha que demonstrar para os novos amigos que estava por dentro, afinal eles haviam feito a gentileza de me deixar participar daquele grupo descolado. Mas – dúvida terrível – e se eles tirassem onda com minha cara? E a turma era bem dessas mesmo.

À noitinha, o ‘gigante da Phillips’ (um potente rádio/gravador do meu coroa) e a fita cassete chegaram para o ajuntamento. Arrumei uma extensão para ligar a tomada, abri a caixinha, calibrei o contador com a tecla rew do estéreo, preparei o espírito dos novos amigos – todos espertos, sabichões… Larguei!

Ao final, um deles perguntou ao mais velho do grupo com um ar de quem sabia (mas não sabia) a resposta. Estava mesmo perdido:

– E aí Zezinho? O que você achou? E o caranguejo se achante do Zezinho, músico de pouco talento e gosto duvidosos disparou com sarcasmo irresponsável: – “Rock and roll!”

Uma semana de perturbação. Tive que aguentar todo tipo de piada a respeito do meu gosto musical meloso, brega . “– Cadê a distorção das guitarras? Sem guitarra distorcida não existe Rock.” Bobagem! Rock and Roll é estilo livre, não se enquadra, não se aquieta em formatos.

Isso só descobri muito depois.

Muita areia desceu pela ampulheta desde o fato e, de alguma forma, vez por outra, me vejo aquele guri de 10, 11 anos. A minha expressão artística predileta mudou da música para o Teatro. Mas o estilo permaneceu Rock and roll. Porque a busca pelo diferente, pelo contraditório, pela dúvida manteve-se e ganhou um importante aspecto: o artesanal em detrimento à produção seriada.

Sim, eu podia estar fazendo ‘teatro pop’. Mas eu desejo ser persistente tal como foi Raul Seixas. Eu desejo ser profundo tal como são grande parte das letras da Legião Urbana.

Mas por que não fazer ‘teatro pop’, se é simples? É facilmente comercializável? Dá uma grana, dá pra aparecer na TV, e tudo? Quem faz ‘teatro pop’ é disputado. As escolas se engalfinham pra comprar lugares pros seus alunos – pois o número de figurinos e cenários acaba se impondo ao conteúdo. É mais fácil vender o que é quantificável. Isso é inquestionável. Os pais veem pelo que estão pagando.

Carreata de buzu com ar-condicionado, lotada de crianças alimentadas com açúcar em forma de merenda (adrenalina no nível Everest) e pronto. Está pronta a chacrinha. Cultura empacotada para o consumo. E todo mundo fica feliz: o produtor que vai poder trocar de carro ao final da temporada; a escola (inocente ou irresponsável) que abriu mão dos objetivos educacionais intrínsecos à ação; os professores, porque saíram da rotina e não vão precisar ficar controlando o comportamento de ninguém em sala de aula (“- ufa!”); os pais, que terceirizam a sua ‘atividade fim’ que é a de educar melhor seus filhos e não vão precisar levá-los ao teatro no final de semana, nem ficar procurando a melhor programação cultural, ficando com mais tempo livre para si.

Algumas das muitas questões amontoadas: como devemos nos comportar numa sala de teatro ou cinema? Quais aspectos devem ser observados no espetáculo? As crianças estão a par do que vão assistir? Os professores sabem minimamente sobre as relações que devem ser feitas com o
conteúdo programático? Esses detalhes seriam parte do que seria a tal mediação cultural.

Os professores, com frequência, nunca sabem o que estão indo assistir. Eles poderiam pensar – tal como a minha turma de décadas atrás acreditava que sabia o que seria Rock and roll – que sabem o que realmente importa numa apresentação teatral para crianças. Mas como, se não tiveram mínima instrução para discernir?

Para muitos Rock and roll tem que ter guitarra distorcida, tal como teatro para crianças tem que ser colorido, musical, falar de temas amenos e ter final feliz.

E aqui estamos nós, teatroqueiros nerds: trabalhando, e teimando, e limando e suando, para oferecer algo digno de ser assistido, rico de ser visto, amplo de sentidos, mágico por transportar pessoas para um deslugar.

Nosso Grupo sempre realizou espetáculos que buscaram ir além do ‘teatro-pop’, que para mim seriam aqueles produzidos a partir de cartoons da tv e da internet. O Teca Teatro sempre foi rock and roll: valorização da identidade baiana, nordestina, brasileira, discussão política e cultural, condição sexual, encontros e desencontros, viagem pelas palavras, pelas imagens, cinestesia e morte são alguns dos temas que emergem em nosso fazer artístico voltado para a infância e juventude, sem desmerecer a inteligência e a sensibilidade do nosso público. Até porque, nada é tão sério que não mereça uma balada, uma piada, uma reflexão.

Contudo e infelizmente seguimos cantando como verdade cotidiana:

 “(…) há tempos são os jovens que adoecem
E há tempos o encanto está ausente (…)”

Então… se liga aí, babies! Porque, como a vovó já dizia:
“Quem não tem colírio usa óculos escuros
Quem não tem visão bate a cara contra o muro”.

Oxente!

3 Comentários até o momento

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  1. Patricia
    #1 Patricia 16 junho, 2015, 12:18

    Interessante o texto! Concordo, e no trabalho de formiguinha, todos aqueles que querem o melhor do mundo caminham…

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  2. Luciana Abud
    #2 Luciana Abud 9 julho, 2015, 12:44

    Marconi e CIA, parabéns pelo seus posicionamentos e pelo seu trabalho. Acredito que os ensaios e os bastidores são mais importantes que o espetáculo em si. O que se aprende e fica tem mais valor do que o se mostra!
    Isso é educação de verdade!
    Abraços,
    Luciana Abud, mãe de Mikael, seu ex-aluno

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