Lendo, a gente se entende! – Por Maria Gabriela Monteiro Paiva

Ler ou reler bons livros infantis nos lembra como é bom ter imaginação de criança, como é boa a sensação da descoberta, do aprendizado contínuo, como é bom brincar e olhar o mundo de um jeito (mais) especial. Falando em olhares… o convite de hoje será para ativarmos o nosso “olho-câmera”.

Para iniciar, indicarei três livros que entraram na minha vida em uma determinada época e ainda me acompanham como mãe e educadora.

Começando pelo título “Óculos para Luzia”, da autoria de Vassilissa (Ed. Ática), foi uma surpresa conhecer essa menina que enxergava as pessoas e os objetos de uma forma muito diferente, embaçada, até mesmo desfocada. Parecia viver no mundo da Lua, por confundir tudo e todos.  “(…) estamos falando de bolas e não de botas! E aqui não é um 3, é um 5, cabecinha de vento! Além disso, não se debruce tanto, não é com o nariz que se escreve! (…)” – exclamava a professora de Luzia na frente de todos os seus colegas. Uma situação nada confortável!

À medida em que ia me apropriando da história, meu coração pulava de alegria ao perceber que, assim como eu, Luzia precisava usar óculos porque era míope. No mesmo período, ganhei os meus óculos e assim como a personagem, passei a ler o mundo de forma mais próxima da realidade. Hoje, é possível experimentar a sensação de tirá-los um pouquinho, só para o deleite de enxergar a vida de um modo único, só nosso.

Luzia querida, você nem imagina a minha alegria ao ler a sua história, quando tínhamos aproximadamente a mesma idade. Eu me vi em você e meus colegas curtiram ao perceber como eu (não) enxergava. Foi a “sensação” do momento!

Outras passagens literárias bastante significativas aconteceram quando me tornei professora da minha filha, a partir de uma específica área de conhecimento. Ela estava nos seus encantadores três anos de vida. Vale registrar que ter sido professora da minha filha foi um delicioso capítulo para a história da minha vida.

Na sala, em um momento de roda, enquanto estava conversando com a turma sobre a rotina da aula, Maria Fernanda se levanta e pergunta: – “Mamãe, por que eu sou cor de pele e você é marrom?”.

Pausa para reflexão!

Procurei responder de forma mais maternal possível, sem perder a compostura profissional: “Nanda, temos a cor de pele diferente porque você nasceu parecida com o seu papai, bem clarinha. Somos parecidas em outras coisas; o jeito de ser, o cabelo com lindos cachinhos e cheias de charme!”. Ela me deu um delicioso abraço e rimos juntas! Foi um momento muito nosso, mesmo estando cercadas de outras crianças atentas ao diálogo.

Depois da aula, fui contar para a minha querida coordenadora pedagógica, Thellma Gottschalk, a situação vivenciada. Ela, com a sua sabedoria de sempre, sugeriu o livro “Menina bonita do laço de fita”, escrito por Ana Maria Machado (Ed.Ática).

Foram apenas dezenas de noites contando essa belíssima história e a cada narração percebia um sorriso de satisfação no rosto da minha filha antes de adormecer.

Ainda no grupo 3, Maria Fernanda leva para casa um livro que dispensa qualquer palavra escrita: “A flor do lado de lá”, do premiado Roger Mello (Global Editora). Nessa história, as imagens possuem ritmo, contraste, dinamismo, direção, suspense a ainda uma série de características que só o leitor, após a leitura atenciosa, descobrirá. As imagens desse livro têm seus silêncios pra lá de reflexivos.

Insisto para você, querido leitor, conhecer esses três tesouros. Todas as páginas trarão uma agradável surpresa para o seu coração. Mas, surpresa maior acontecerá quando o seu campo de visão for aberto e conseguir ressignificar momentos da sua realidade a partir dessas conversas literárias.

Boa leitura e até o próximo capítulo!

Maria Gabriela Monteiro Paiva é mãe da esperta Maria Fernanda, de 12 anos. Educadora de alma e pedagoga por paixão, tem orgulho do sobrenome Monteiro. Por que será?
Adora ir às bancas de revistas, ler, comer (muitos) quitutes e estudar. Tem especialização em Saúde na Infância e Tecnologia Assistiva. Coordena o projeto Ciranda Pedagógica junto com uma equipe multidisciplinar, voltado para crianças com Transtorno do Espectro Autista. É consultora na área de Linguagens Multimídias em instituições de ensino e sempre diz aos seus alunos que eles são os maiores professores.
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2 Comentários até o momento

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  1. Fabiane Leal
    #1 Fabiane Leal 9 julho, 2015, 21:42

    Delícia de artigo! Sem dúvida, lendo a gente se entende. Lemos o tempo inteiro o mundo e as coisas à nossa volta. Lemos as pessoas, as situações, os fatos, mas também esses companheiros inseparáveis: os livros! Como eles nos ajudam! Revelam possibilidades, trazem questionamentos, nos confortam.. Difícil imaginar uma infância sem leitura. E, de fato, mães e pais, assim que puderem leiam essas jóias compartilhadas pela Gabriela, com seus filhos. E muitos outros também! Afinal, lendo a gente se entende!

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