Em tempos de crise – Por Luciana Comin

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Há alguns dias, algumas poucas instituições se lembraram de comemorar nas redes sociais o Dia Internacional do Teatro para a Infância e Juventude. Confesso que nós mesmos, do Teca, não mencionamos a data na nossa página porque estivemos nos últimos dias alarmados com a situação política e com as claras consequências para as artes e para a cultura que podem surgir dos próximos capítulos dessa crise.

São duas questões envolvidas. Primeiro: Quais serão os rumos da cultura do país daqui pra frente? Já estamos penando com essa crise há algum tempo. Patrocínios suspensos, editais atrasados, cursos de arte perdendo alunos e teatro perdendo expectadores porque o raciocínio é sempre que, numa situação de crise, a primeira coisa a ser retirada da vida das pessoas é a arte.

E, segundo, na medida em que nos perguntamos o que será da cultura de uma maneira geral, nós paramos para refletir o que tem sido a arte, mais especificamente o teatro para a infância e juventude, nos últimos anos. Independente da crise. O que o teatro local tem feito para enriquecer de conteúdo e qualidade estética o teatro para essa faixa etária.

Nesse sentido, acho que podemos visualizar no microcosmo uma situação que assola o mundo. Uma inversão de valores que é tendência na sociedade atual e é oferecida desde muito cedo para nossas crianças. A glamourização, a importância que se dá ao consumo, ao “ter”, a maneira como as coisas são “postas em embalagens”, a sedução pela imagem e efeitos em detrimento do conteúdo. Vivemos nessa lógica. E de uma maneira geral, os pais têm oferecido para suas crianças, mesmo sem perceber, produtos artísticos que seguem essa mesma lógica. Personagens da TV no teatro. Efeitos especiais, personagens que voam, histórias desgastadas, que não dialogam com as crianças de hoje, e que, ainda pior, subestimam a capacidade de raciocínio e a criatividade da criança. Mas tudo isso embalado em uma plástica que enche os olhos, com música, troca de cenário e figurinos luxuosos.

E vemos assim a própria essência do teatro se esvaziando… Nesses espetáculos o teatro só continua presente enquanto edifício, arquitetura, mas o fazer teatral, sua essência, têm desaparecido gradualmente.

E qual é a essência do teatro? Teatro é jogo. Jogo entre os atores, jogo entre público e plateia. Teatro é troca. Teatro estimula a mudança. Teatro na, sua essência, provoca em quem assiste uma vontade de ação. Teatro transforma, instiga novas ideias, novos pontos de vista, teatro também educa, embora nem sempre essa seja sua função primeira. O teatro reverbera para além daquele momento. Ele impacta no cotidiano. Não é como assistir uma apresentação, se divertir ali por alguns instantes e logo depois esquecer o que se viveu. Teatro é uma experiência.

Grupos de teatro que se preocupam em viver com o público essa experiência – Aqui não falo só do Teca. Na cidade de Salvador há mais grupos que, como nós, resistem e persistem – buscam outro tipo de lógica em suas criações. E, na maior parte das vezes, essa outra lógica não dá importância à glamourização ou ao luxo visual gratuito. Não que não se possa ter isso, mas tudo o que está posto, precisa estar conectado com os outros elementos, precisa fazer parte da proposta.

O problema é que pais, mães, educadores em geral pouco frequentadores de teatro, não conscientes do jogo teatral, confundem muito essa lógica e julgam ainda pela aparência. Se não tem efeito especial, não serve. Se não tem cenário a peça é pobre.

Ao mesmo tempo em que pais e mães repetem aos seus filhos que o mais importante é valorizar a essência e não a aparência, por que ainda se leva crianças a espetáculos que seguem exatamente o raciocínio oposto?

Enfim… Em momento tão particular da história de nosso país, em que os rumos da cultura e da arte estão tão imprecisos, em que os artistas tentam a duras penas resistir, uma atenção maior de nossa parte olha para o teatro para crianças e percebe uma situação duplamente triste. A criança não merece um maior cuidado e uma melhor mediação na fruição da arte para que esta possa mesmo impactar a sua vida? E não serão dessas mesmas crianças que se esperam mudanças e se depositam esperanças para um país mais justo, honesto e tolerante?

Que o Teatro para a Infância e Juventude possa ser lembrado e comemorado. Que os artistas tenham recursos e responsabilidade para fazer desse teatro algo digno de comemoração. Lutar pela qualidade e diversidade da arte para esse público também é um ato político. E tem tudo a ver com a situação que vivemos hoje em nosso país.

* Luciana Comin é atriz, arte educadora e inventora de histórias do grupo Teca Teatro. Mãe de Zizi, de oito anos, sua companheira de aventuras pelo universo da infância. Ah, a infância! Que grande fonte de inspiração! Desde criança, já gostava de inventar histórias. E continua gostando! Tanto que hoje pesquisa no doutorado como criar histórias cada vez mais legais para crianças e jovens.

4 Comentários até o momento

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  1. Ana Valéria
    #1 Ana Valéria 25 março, 2016, 12:29

    Concordo com vc…em parte.
    Levo minha filha ao teatro desde 1 ano de idade(ela tem 4) e já me deparei com situações…tristes.. . Tem um grupo que faz espetáculos todo final de semana e que deixa clara a falta de cuidado com os .atores, texto, figurino, etc…toda a produção é…triste.
    Cadê a preocupação com a formação da platéia?
    Em compensação, já vi coisas como os “Encontros de domingo” na biblioteca Central, o “estórias divertidas ” na biblioteca Monteiro Lobato, o “Contos de fadas , bichos e gente” que são propostas interessante, sem figurinos, luzes ou pirotecnia e que servem como incentivo à volta só teatro. Fizeram minha filha sair dizendo :” MÃE, QUERO FAZER TEATRO!”
    Por mais ARTE-EDUCAÇÃO!!!

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    • Luciana Comin
      Luciana Comin 28 março, 2016, 18:23

      Olá, Ana Valéria! É isso mesmo. Como disse no artigo, existem alguns grupos e artistas que ainda resistem e persistem no objetivo de promover ações de qualidade para nossas crianças. O Encontros de Domingo é um projeto assim, totalmente comprometido com a cultura infância. Foi uma ótima lembrança a sua. Por lá já passaram grupos ótimos, como o Via Palco e o Nossos Trecos. Nós, do Teca, já participamos também. Torço para que mais famílias passem, a valorizar projetos como esse. Obrigada pelo comentário! Abraços, Luciana!

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  2. Gabriela Azevedo
    #2 Gabriela Azevedo 27 março, 2016, 10:39

    Para onde caminha a humanidade?

    Artigo lúcido e necessário, para tempos que tentam nos enganar e nos fazer esquecer que o essencial é invisível aos olhos!
    Salve a persistência e força do TECA!
    Viva a Infância!

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